Reportagem: Alvalade Arise (11ª edição) – 22 e 23 de maio de 2026

 




Alvalade Arise é um festival obrigatório para mim, e espero que muitos que se encontram desse lado, possam vir a sentir-se da mesma forma.

Abrangência sonora que os cartazes, todos os anos carregam, é de invejar a muitos festivais, dito ‘grandes’. E claro, o convívio, se não aquilo que torna a comunidade metaleira, uma massa associativa coesa e poderosa.


1º Dia


Danger Machine e aquele speed maléfico

“Irmãos e Irmãs, bem-vindos à missa” e foi assim que começou o Alvalade Arise 2026. Danger Machine entregou tudo o que tinha, e o que não tinha, negociou com o Diabo.

Com uma sonoridade de Speed e Rock’n’Roll, sarapintado com uma estética de Black Metal. Destaque para os temas “Smile on a Killer’s Face” com um riff potente; e para a subida do vocalista de Filii Nigrantium Infernalium, o incrível Belathauzer, ao palco para encerrarem a atuação com “Black Metal”, a cover dos Venom.

Ser a primeira banda de um fest nunca é fácil, posto isto os Danger Machine fizeram dessa tarefa hercúlea parecer simples. E no final, todo o gelo tinha sido derretido, com esta infernal atuação.

 

Godark com um melodeath hipnotizante

Para quem é amante de um Death Metal de pendor melódico, bastaria ouvir os primeiros segundos da sua prestação. Com uma sonoridade preenchida de harmonias, não fossem as 3 guitarras presentes em palco, e uns laivos sinfónicos, que enriquecem em muito toda a mistura sonora.

As malhas apresentavam sempre um formidável groove, que atraía magneticamente os metaleiros, confluindo para o recinto. E assim, foi crescendo a audiência do festival. Os breakdowns puseram Newton em check, pois a gravidade foi desafiada em cada um desses momentos de partir o pescoço. Colares cervicais foram necessários no dia seguinte, certamente…

Entre os tremolos hipnotizantes que nos encaminharam pelas trevas cintilantes, e entre o timbre e forma de cantar que nos remetem imediatamente para Mikael Stanne, a sua atução de cerca de 45minutos, esvoaçou por entre os tímpanos de todos os presentes.

Em suma, é como se as dinâmicas harmónicas de Iron Maiden colidissem com as melodias rasgadas de Dark Tranquility, mantendo a sua própria identidade, de 24 quilates musicais.

 

Nihility: Jarda!

Entrar ao som de “Country Roads” devia dar direito a prémio de vencedor automaticamente, e os Nihility  pisaram o palco com uma audácia e coragem, que só foi superada pela sua magnifica atuação.

Com uma sonoridade alicerçada no Death, com forte influência no Black, resultando num som muito dissonante, maléfico e carregado de uma aura negra. A agressividade sonora é tão feroz que logo nos primeiros instantes Alvalade do Sado ficou sob o seu domínio, e assim se manteria nos 40minutos seguintes.

Os calafrios que o meu corpo reproduziu, significavam que os riffs dissonantes estariam a invadir o meu córtex auditivo, a tomar o controlo sob o meu sistema límbico.

Temas como: “Organic Fallacies” atestaram a qualidade de todos os membros desde dos solos de guitarra, aos fills de bateria e baixo; “Shallow Ataraxia” revelaram um excelente groove e umas dinâmicas musicais, de meter inveja a muitas bandas; “Destryoing the Shackles of Prejudice” relembraram a violência possível com uma simples espreitadela do riff.

Destaque para a música nova “Wandering Forlorn” com uma atmosfera muito sombria, deixando no ar o que poderá vir nos próximos tempos. Terminaram com “Religious Dogma” e “Human Stupidity”, em que foram responsáveis pelo primeiro Circle Pit e pela primeira Wall of Death, respectivamente.

 

Filii Nigrantium Infernalium é Filii Nigrantium Infernalium

Dispensam de apresentações, todos os conhecem, só que ainda assim, cada concerto é como se fosse uma experiência totalmente nova.

A mescla de géneros que passa pelo Black, Heavy, Speed e Thrash tornando, sonoramente falando, um paraíso para muitos ouvintes, enquanto as letras são carregadas de crítica religiosa, sempre ornamentadas com muito humor (enfâse no muito) tornando, liricamente falando, um inferno para os mais devotos.

Arranque astronómico e místico com “Calypso” e “Pérfida Contração”, espalhando por todo o recinto do festival a sua identidade: energia, groove e sentido de humor.

Passaram por temas como “Matéria Negra”, “Negros Hábitos” entre outros, culminando com “Abadia do Fogo Negro”. Nesse último com a participação do vocalista de Danger Machine, Count of Lucefecit, numa apresentação bastante teatral, que foi conduzido para um final perfeito.

 

Cavilha e o Rock’n’Roll nunca morrerá

Se o festival até aqui tinha sido repleto de metalada, agora seria tempo para tirar o pé da distorção, e momento de prego a fundo na Cavilha (pun not intended).

Festa seria melhor forma de descrever a sonoridade proveniente daquele trio maravilha dos algarves. Muito Rock’n’Roll com temáticas de boémia, a combinação perfeita para fechar a noite. E muitos apreciaram a sua atuação com atenção minuciosa, acompanhados com copo na mão.

Na próxima edição do dicionário de língua portuguesa, Cavilha irá aparecer como sinónimo de Rock’n’Roll.

 

 

Uma excelente forma de encerrar o dia 1 do festival, deixando um gostinho na boca. E abrindo ainda mais a vontade para o dia 2.


 

2º Dia


Problemas logísticos da minha parte, acabei por perder algumas bandas, pelo que deixo já expresso o meu pedido de desculpas às bandas.

 

Chaosaddiction a meter Alvalade a groovar

Acabei por ainda apanhar os Chaosaddiction a tocar o célebre tema de Machine Head “Davidian”. Mas, obviamente, que se trata de um Groove que ilumina qualquer tímpano dançante, e durante uns breves minutos, ainda pude apreciar a sua elegância rítmica.

 

Verme e a mescla de som rasgado

À primeira vista (de ouvidos) a musicalidade soava a uma mistura de Black/Death porém mais apunkalhado. Com uma energia inesgotável, despejaram sobre o Arise uma vibe bastante groovica, conseguindo sem grande esforço invocar a época do Circle Pit.

Com uns filões de Crust à mistura e muito Hardcore, numa amalgama sonora que se passeava pelo Death/Grind com propensão para o Black: uma riqueza para os ouvidos sedentos de frescura, e fazia tanto calor em Alvalade.

Os breakdowns serviram de oásis, naquela parecia ser a atuação mais quente, até ao momento.

 Uma verdadeira agradável surpresa. E ainda, brindaram com uma cover de Da Weasel, atestando o seu rol de conhecimento do mundo da música.


Destroyers of All e a eloquência musical

Entraram a matar! Detonando todos os átomos de oxigénio existentes, e todos ficaram em suspenso com falta de ar, e a temperatura elevou-se ainda mais!

Numa mistura sonora que oscilava entre o Thrash e Death, com uns laivos de sinfónico, e claro uma veia de Prog que espreitava entre as camadas de som, só para nos atingir na face de forma mortífera e silenciosa.

Arrisco-me a afirmar que foram a banda que se apresentou com maior criatividade artística no que concerne à composição, evidenciando a maior e mais abrangente musicalidade, e conhecimento de música, no sentido mais lato da palavra. Excelentes dinâmicas nas guitarras e baixo, compassos complexos, muitos pitch harmonics para meu regozijo (e para o de muitos), e uma bateria dos infernos com duas baquetas favorecidas pelos reis do Groove.

“Day of Reckoning” é o apogeu da descrição sonora da banda, onde facilmente se ouvia Haken, Iced Earth e Symphony X nas entrelinhas (eu pelo menos ouvi), numa mescla de variadíssimos géneros, onde a melodia tinha o seu destaque, bem como as mudanças rítmicas. Estrearam ao vivo o tema “Guile”, e ainda tiveram o Rui da Mosher como convidado num dos temas. E tocaram, aquela, que para mim é uma obra-prima do Metal Nacional “Tormento”, em que é enfiado fado, de uma forma tão perfeita e elegante, num tema de Death/Thrash – sublime – que me arrepiou a alma, como há muito tempo não sentia.

Ainda houve direito a um encore (com muita suplicia da parte da plateia), e fecharam com aquele foi o seu último videoclipe “Closure”, uma forma poética de finalizar um concerto.

 

Pitch Black com Thrash à moda Antiga (e do Porto)

Old School Thrash Metal tem sempre um gostinho diferente, e um daqueles que nos deixa sempre a querer mais. Então, não demorou mais do que uns míseros 2segundos, até a arena do Arise se incendiar com um pit descomedido, de dimensões bíblicas.

Os temas “Divine not Human” e “Unleash the Hate” serviram como gasolina para a fogueira do pit, e como combustíveis para os seus incendiários, que corriam sofregamente em seu redor. Os riffs de pura agressividade musical, influíam pela atmosfera ardente e penetravam pelos poros suados de todos os presentes, dando por uns breves instantes uma sensação de frescura, para rapidamente os mandarem de volta à realidade ardente de puro Thrash Metal.

Riffs, cerveja e muitos sorrisos foram colorindo a plateia, que cada vez se apresentava mais composta, e com mais desejo de boa música.

Pitch Black deixou ainda “Thash Metal Elite!”, naquele que é na minha opinião o melhor tema do colectivo, libertando todas as suas reservas de vitalidade em palco, e obrigando o público a gastar também as suas. Um entrega em palco de uma intensidade invejável, e no final abandonaram o palco, com sorrisos bem rasgados nas suas faces – tarefa cumprida.

 

Toxikull: Clássico e Pesado

Mais uma banda que não necessita de apresentações. Com uma sonoridade bem firmada no Heavy Clássico e no Speed, e em Portugal não existe outro som como este.

Com uma prestação sempre no ponto, apesar de mais curta do que se estaria à espera. Ainda assim derramaram a sua velocidade, melodia e energia por todo o recinto, deixando bem vincada a sua passagem (novamente) pelo festival.

 Deixaram junto da plateia uma vontade de os voltar a ver, talvez num registo mais alargado.


Gama Bomb e uma mascote única

Aqui residiu a minha verdadeira experiência nesta edição do Alvalade Arise, eu fui a mascote de Gama Bomb: Snowy.

Umas horas antes do show, tinham-me dito o que era suposto fazer, e combinamos em que músicas era suposto eu aparecer. No final, disseram-me algo do género: “podes aparecer nas músicas que quiseres”. E com total liberdade criativa para fazer o que quisesse.

Muita dança dentro e fora do palco, acabei por dançar a macarena, e claro a dancei a valsa com o vocalista Philly Byrne. Muito Circle pit, e sempre a tentar ativar os fãs para que a festa crescesse. Culminou com um Crowd Surfing monumental.

Ressalvo que a máscara é extremamente quente e a visibilidade é reduzida, no entanto, o gosto pela festa levou a melhor, e essas aparentes adversidades, só tornaram o desafio ainda mais interessante. Uma oportunidade de uma vida.

E claro, assistir a um concerto de outra perspectiva, em cima do palco, e de na zona lateral – incrível.

Deixo desde já a minha nota de agradecimento aos Gama Bomb por terem confiado em mim, e por terem sido mega simpáticos, ou como se diz na gíria, foram uns bacanos. E agradecer ao Bruno Rosa, por se ter lembrado de mim para esta aventura. Não tenho palavras para descrever, com a justiça devida, toda a montanha-russa de emoções durante e após o feito: incrível!

Em termos de som, a sua sonoridade é Thrash mais moderno, super energético e super intenso. Temas clássicos não faltaram como “666Teen”, “Mussolini Mosh”, “Give me Leather”, “Thrashoholic” e “Ninjas Untouchables” (entre outras). O seu bom humor só foi ultrapassado pela sua qualidade técnica, uns senhores no mundo do Thrash Metal. Ainda tocaram uma cover dos The Pogues “If I Should Fall From Grace with God”, para um maior incremento da festa.

No final do concerto, muitas fotos, autógrafos e conversas entre fãs e a banda. Os músicos foram incríveis e altamente acessíveis, evidenciando uma humildade deslumbrante e um gosto pelos fãs.

Quem sabe, num próximo concerto dos Gama Bomb em Portugal, me queiram para repetir a proeza! (Deixo-lhes o desafio). Modéstia à parte, fui melhor do que o Eddie eheh

 

Ektomorf a distribuir torcicolos por todo o recinto

Havia muitos presentes que aguardavam ansiosamente pelos húngaros. A banda já não pisava solo nacional desde 2017, pelo que as saudades já eram muitas.

E, pois, bem, do início ao fim, foi simplesmente uma onda de pura destruição massiva! Com uma sonoridade pesada, carregada de distorção e de muito groove, que imediatamente colocou todos em headbang incessante (curioso para saber como estarão esses pescoços nos dias seguintes). Numa mescla de Groove Metal com Nu Metal, numa assinatura única, contudo, remetia-os para Slipknot (seja na atitude entregue no palco, seja na forma como se expressam musicalmente) e para Machine Head (tanto pelo groove, como pelo carisma).

Foram sempre bastante interativos com a plateia, e mostraram que é disto que gostam, da dualidade banda-público.

Destaque para os temas “I Choke” e “You Can’t Control Me”, onde em cada um desses a energia subiu para lá da estratosfera, e foi devolvida sob o modo de meteorito metálico de pura aniquilação musical – e todos os presentes absorveram essa energia e mantiveram o pit aceso durante toda a atuação. As emoções cresciam e disseminavam-se por todos de uma forma infeciosa, e todos queriam ser infetados pelo vírus da felicidade.

O momento alto foi a cover de Slipknot “Surfacing” onde Alvalde do Sado por uns breves momentos, desapareceu do planeta Terra… num teletransporte quântico pelas ondas de groove dos Húngaros, tendo regressado no final do tema, no entanto, ninguém voltou igual, todos tinham nos seus semblantes um sorriso que não podia ser fingido – era felicidade genuína – uma lição de como viver.

 

Alpha Warhead: Bomba Nuclear em Alvalade

Sem demoras, lançaram uma devastação nuclear sobre todo recinto, ou não fossem eles: os Alpha Warhead!

Thrash do bom, Thrash rápido. Thrash carregado de vitalidade, que ressuscitou os que tinham perdido a vida em combate na batalha Ektomorf.

Com uma plateia já mais modesta, só que isso não deprimiu em nada a entrega do grupo, que destilaram uma catástrofe thrashica do mais caótico (no bom sentido), sempre sustentada no seu carisma e boa disposição.

E apesar de serem jovens, revelam uma certa maturidade em palco, bafejada pelo seu jeito de natural de criar faixas de Thrash que nos metem a dançar de modo pavloviano.

 

 


E assim se encerrou mais um Alvalade Arise. Para mim este já foi o 4º, e a cada edição vou ganhando um carinho, cada vez mais especial pelo Festival.

Já disse, e volto a reiterar, Alvalade Arise é o verdadeiro festival do Litoral Alentejano. Pode não ser o maior do Alentejo, todavia, é sem dúvida aquele que me traz maior felicidade.

Quero deixar bem presente que a banda com melhor composição musical, e conhecimento de música são sem dúvida os Destroyers of All, com uma mistura de Death e Thrash, com muito Prog à mistura, entre outros.

A melhor banda para mim foram os Gama Bomb, seguidos pelos Ektomorf, pela entrega, e pela forma como cultivaram uma energia coletiva entre todos os presentes.

A maior surpresa foram os Verme, e a banda com melhor presença de palco foram os Pitch Black.

São 11 anos de Alvalade Arise, e a cada edição nota-se um crescimento em vários aspectos, não só em termos de cartaz, mas também na forma como se organiza, e como se apresenta ao público. É uma década de maturidade, e isso fica claro, pelo menos a quem já esteve em mais do que uma edição.

Novamente, fez-se história em Alvalde do Sado! Fez-se história no Alvalade Arise! Fez-se história no Alentejo!

Aproveito para ressalvar que, a criação do toldo para criar sombra foi sem dúvida uma das melhores ideias que poderiam ter tido, ainda por cima devido às temperaturas elevadas que se fizeram sentir, em particular no sábado. Muito bem conseguido!

Como não podia faltar, deixo a minha palavra de agradecimento à organização, porque 11 anos disto não é fácil, e ver o seu crescimento, é de facto de se louvar. Uma palavra em especial para o meu amigo Bruno Rosa, pelo carinho e atenção, e um obrigado pelos diversos convites (como a escrita de textos de apresentação de bandas, e claro pelo convite para ser o Snowy dos Gama Bomb), para que alguma forma, eu também pudesse contribuir para o festival (é, e será sempre um privilégio ajudar nesse sentido). Um obrigado ao Rafael Varela pela boa disposição, pelo carinho demonstrado pela música e pela preocupação para com o festival. Um obrigado às bandas, porque andar na estrada nunca é fácil, e com o passar dos tempos parece ser cada vez mais difícil, e é preciso enaltecer a coragem e perseverança de todos. Um obrigado caloroso aos Gama Bomb por me terem aturado, e me terem deixado fazer parte da festa. Um agradecimento aos festivaleiros, pois são eles o combustível desta máquina que é o Metal, e os seus festivais. Um obrigado a todos os que de alguma forma contribuíram para a organização e logística do festival (os trabalhadores silenciosos), sem eles nada disto existia. Um obrigado aos media, por ajudarem na divulgação do festival e das bandas.



Querem-se mais festivais como este! Quere-se boa música, bom ambiente e bons festivaleiros! Querem-se momentos destes onde possamos ser livres e abraçar a música. Querem-se bandas potentes que com a sua arte tornam-se o veículo de escape do mundo real, que está carregado de problemas, só com a música temos breves momentos onde podemos respirar um pouco de alívio. Resta dizer: que venha o Alvalade Arise 2027! (tipo já!)


É isto que é metal! É isto que é O Peso do Metal!


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Reportagem: Damnation 2025 (20 anos) – 08 e 09 de novembro de 2025 - Manchester

Reportagem: ZLive! Rock Festival (X Edição) – 12 a 14 de junho de 2025

Reportagem: Alvalade Arise (10ª edição) – 23 e 24 de maio de 2025