Reportagem: Damnation 2025 (20 anos) – 08 e 09 de novembro de 2025 - Manchester

 


 

É de coração cheio que escrevo este texto! Nunca me tinha sentido tão feliz, após um festival. A nostalgia invadiu todo o meu corpo, e pôs-me num estado de viajar pelos dias passados, em Manchester. Já há muito que não escrevia aqui, porém a força divina do Metal compeliu-me a deixar o meu testemunho, daquele que foi, potencialmente, o melhor festival do ano.

Eu quero deixar uma breve introdução, sobre o que pretendo com o texto. Eu vou falar do meu ponto de vista do festival e do warm up. Eu falarei apenas das bandas que tive a sorte de ver, escolhas tiveram de ser feitas, e como tal existem bandas que não pude assistir (com muita pena minha).

Ainda, antes de avançar para a crónica, propriamente dita, quero deixar, primeiramente, o meu mais sincero agradecimento à Organização do Festival, festivaleiros, media, a todos os que trabalharam no festival, e a todos os que contribuíram de alguma forma para a sua realização. Obrigado, pois tornaram uma experiência única, e digna de uma memória perpetua no meu hipocampo e coração. Um grande obrigado, à comunidade metaleira presente, que demonstrou ter um espírito, que eu nunca tinha sentido, em nenhum festival, até então. Um agradecimento a todos os funcionários no festival, que demonstraram uma simpatia e profissionalismo, de invejar em qualquer lugar, pois sem qualquer sombra de dúvida, nunca tinha sido tão bem tratado.

E por último, e o mais importante, a equipa que me acompanhou: 3 amigos que embarcaram (ou embarquei eu, já nem sei, na verdade fomos todos…) conjuntamente, para a festa da "danação". Sem eles, o festival teria sido bom, todavia, não teria sido perfeito. A alma da festa foi depositada, sagradamente, neste quarteto que reinou em todo o festival.

 


Warm up – Night of Salvation


A jornada iniciou-se logo na sexta. Fomos de propósito para o warm up, onde sabíamos que iriamos ver 4 bandas, não sabendo quais seriam – e só saberíamos quase em cima da hora.

Sorte ou destino, e encontramos 2 membros dos Conjurer no mesmo restaurante, onde decidimos ingerir calorias, mesmo antes do evento. Um dos meus amigos, lá se meteu com eles, e soube que iriam tocar. O set seria o ‘Mire’ na integra – algo que já era alvo de especulação.

A atuação iria ser feita no pub, pelo que sabíamos que iria ser um concerto mais intimista. E que o ambiente seria incrível.

As bandas foram: Deadguy, Stampin’ Ground, Conjurer e Raging Speedhorn.

¾ da nossa equipa viram ¾ das bandas: Deadguy, Strapin’ Ground e Conjurer. Digamos que se faltou à última banda, porque entre bandas, descobriu-se que havia karaoke no bar…. Claro que ficamos colados ao Karaoke. E fizemos história, cantando imensas canções, pelo que irei destacar apenas a primeira ‘Bohemian Rhapsody’ dos Queen – adquirimos uma legião de fãs, que até nos iriam cumprimentar durante os dias seguintes do festival.

Das 3 bandas que vi, Conjurer conseguiu a melhor atuação. A sala ficou completamente pregada à força magnética da banda. Ouvir e ver ao vivo ‘Mire’ foi uma experiência única – e eu nem tinha gostado do que tinha ouvido em casa, só que ao vivo… ao vivo aquela música ganha todo um novo reportório de cores e texturas.



Dia 8


Devastator (soube a) pouco mas muito bom

A noite do warm up prolongou-se um pouco mais (festa a mais certamente eheh), pelo que conduziu ao atraso na chegada ao recinto da BEC Arena, em Manchester. Posto isto, só me foi possível ver 1 música de Devastator (com muito arrependimento), porque a energia era gravítica e puxava para o centro, onde tudo rodava em sincronia com o groove palpitante. A mistura do Black com o Thrash tem sempre um gostinho a dança, e dança no metal: é no MOSH!

 


Pausa para Merch

Naturalmente, que me debrucei (e gastei) no Merch do festival. Aquela necessidade de metaleiro, em levar consigo uma memória material, veiculada na forma de objectos identificados com as bandas, que tanto adora…todos sofremos desta condição, apesar de o negarmos.

 


Castle Rat e um Doom carregado de fantasia e representação

A sonoridade da banda é muito fácil de entrar nos tímpanos. Os amantes de Doom ou Stoner, facilmente, ficariam rendidos. Do grupo, eu era o único que ainda não os tinha visto ao vivo, e digamos que valeu a pena. Os solos são de louvar, e penetram a alma de quem tem um soft spot por um solo mais Heavy Clássico. Adiciona-se, uma forte dose de teatralidade, em palco, que ornamenta a tela musical, funcionando de forma simbiótica, tornando tudo tão melhor.

 

Messa com uma missa sonora

Uma das bandas que eu mais queria ver, pois não tinha tido, ainda, oportunidade de os ver. Pois bem, não desiludiram, porque a atuação foi singular. A sonoridade acantonada ao Doom, dá um certo peso atmosférico, que é dinamicamente amortecida pela melodia e harmonia, desenhada de modo engenhoso. Para além disso, é ainda feita a união de outros estilos, que caiem que nem uma luva. A postura da banda evidenciou que nasceram para tocar ao vivo, um talento combinado com um desígnio sobrenatural – culminando num som que nos teletransporta para as terras sublimes da melancolia. O único problema foi o concerto ter sido tão curto.

 

Orbit Culture: O GROOVE está vivo

Mais uma que eu queria muito ver ao vivo, depois de ter chegado atrasado ao concerto que deram em Portugal. Primeiros segundos, da sua prestação, e eu sabia, eu sabia, que isto iria ser poderoso. O Groove é tão musculoso e monumental, que fica impossível não dançar. Evidentemente, eu, e as centenas de metaleiros que por ali pairavam, dedicamo-nos ao célebre ritual de head banging.

Muito Mosh Pit! E a força natural, com que a banda comandava aquele ringue de combate, era tão poderosa que de modo pavloviano, todos, continuávamos a rodar infinitamente. E assim foi, até ao último acorde.

A mistura do Groove com o Industrial, acariciado por um death metal com pendor melódico e com uns filões de prog, desloca a audiência para um local de culto musical, para um local seguro, para um local de perfeita comunhão com as ondas de pressão, comummente designadas por som. Uma das melhores prestações de todo o primeiro dia.

 

Afsky um Black Metal que me derreteu

Havia aqui o primeiro clash, para o nosso grupo: Brodequin (Brutal Death/Grind) e Afsky (Black). Eu, descomplicadamente escolhi Brodequin, contudo, quis ir dar uma espreitadela a Afsky antes. Pois bem, 30segundos depois, já não arredei pé…. Fiquei, cabalmente, colado ao som dos dinamarqueses. Um Black atmosférico aguçado como uma faca, que se penetra lentamente pelos poros da pele, e no nosso cérebro brotam emoções, e desencadeia todo um combo de reações nos nossos corpos. A música tem destas coisas, fica impossível de explicar, no entanto, é tão fácil de compreender e de sentir. Fui transladado, sem nunca retirar os pés do chão, para um sítio repleto de emoções sombrias, que eu abracei naqueles minutos – sublime.

 

High on Fire e a sua intensidade cósmica

Havia em mim, uma genuina curiosidade em ver High on Fire ao vivo. Existia, dentro do nosso grupo, um certo hype em torno da sua atuação – eu sendo um verdadeiro adulto, não me deixei influenciar por tais expetativas. A verdade é que, eles estavam certos, e eu fui abismado com a performance daquele trio americano. E Matt Pike é o frontman! Sem quase nunca se dirigir ao público com palavras, mas ainda assim, tão comunicativo e tão carismático, que fica inverosímil não adorar a sua atitude.

O som estava no ponto, e aquele Stoner é propicio para se peregrinar mentalmente, curtindo cada batida, cada acorde e cada nota solta, de modo individual, ainda assim, coletivamente. E High on Fire não é um Stoner genérico, é bem feito e tem muitas dinâmicas, o que torna único e deveras comestível. Um dos melhores do dia.

 

Panzerfaust com um Blackzão furtivo

O som não estava perfeito, no entanto, a forma como os canadianos lançaram a sua performance, eclipsou tudo o resto. Que jarda! O Black Metal da banda é de uma agressividade garrida e palpável, a intensidade da sua entrega torna tudo ainda mais lúcido e iluminado.

A conexão com a plateia foi integral, e a resposta do público para a banda foi orgânica.


Deafheaven: Blackgaze dos sonhos

Adorei! Blackgaze tem vindo a tornar-se um estilo que me puxa realmente. Torna o Black mais digerível, mais polido, mais belo (de uma certa maneira). Deafheaven é um nome incontornável neste campo, só que ultrapassa a categoria de Blackgaze, porque a sua música é mais do que isso.

Uma vez mais, tempo para reflexão, para alguns, outros tantos entregaram-se às 3 wall of death, que ocorreram na prestação dos norte-americanos. Blackgaze é de facto a casa dos sonhos, e como tal Deafheaven tinha de tocar ‘Dream House’, pena ter sido o único tema do ‘Sunbather’.

 

Wormrot com um granel digno de festival

GRANEL! Para os que não, ainda não se encontram familiarizados com o termo “técnico”, granel é som propicio para mosh. O grind deste trio, de Singapura, deixou toda gente num estado eletrizante. A jarda foi imensa, que se convertessem aquela energia, teria sido o suficiente para iluminar todo o Reino Unido.

Loucura, insanidade e outros adjectivos para maluquice, seria a única forma de descrever o que ali se passou. Ótimo para catarse, perfeito para descortiçar. No final, o suor que escorreria pela cara de todos os presentes, evidenciava a intensidade experienciada – excelso.

 

Perturbator e o seu industrial primordial

Momento de disco – para metaleiros. Perturbator teria sido digno de encerrar um festival, de forma a baixar a actividade física e concomitantemente acelerando a atividade mental, dos presentes.

A sonoridade é bem alicerçada no Industrial e Eletrónica, com propensão para o Post Punk e Dark Wave. Uma combinação, que conflui numa destilação sonora, que nos põe a dançar inconscientemente, e ilimitadamente. Ideal para recuperar o fôlego, e enxugar o suor derramado das últimas horas. Contemplação interna fez-se enquanto o som, latejante, se entranhava pelas t-shirts húmidas. Por ali se ficou a curtir… e o tempo relaxadamente passou, de modo efémero.

 

Gaerea: WE ARE GAEREA

Banda tuga no palco, então os tugas na plateia têm de dar tudo – e assim foi. Passamos o concerto todo a gritar “Portugal”, “Gaerea” e “Bacalhau com natas”, ocorreu entre os 4 um misto de vergonha com orgulho, o que há uns dias me foi dito que isso tem um nome: “Vergulho”. Pusemos o pit a andar, e fomos controladores de tráfego de crowd surfing – essencialmente fomos os capitães da plateia.

A banda (eu quero acreditar) aproveitou o ímpeto causado pelo nosso caos organizado, para lançar, talvez, a melhor exibição que eu alguma vez os vi realizar. Com uma energia demiúrgica, e uma entrega que lhes concederia entrada VIP diretamente para qualquer panteão. Temas novos, temas clássicos, era indiferente, porque todas as malhas eram recebidas com o maior fulgor e carinho.

Não é por serem portugueses, mas os Gaerea são, na minha humilde opinião, do melhor Black Metal a ser produzido mundialmente. Não só pela variedade de som que conseguem fazer, e isso é manifesto com a variada discografia que detêm (onde cada álbum tem um som distinto), só que acima de tudo, pela forma como as suas performances ao vivo, são totais experiências imersivas. Não houve ninguém que não tenha gravado esse concerto na sua memória. E isso, foi evidente nas conversas do fórum do festival, onde reiteradamente era mencionado o nome de Gaerea.

No final, ainda nos tiraram uma foto, que está imortalizada nas redes sociais. Uma recordação, daquele que foi o melhor concerto do primeiro dia do festival. No dicionário, junto à palavra sinergia, irá constar uma referência ao gig, porque a ligação foi profunda, entre a banda e o público. Black Metal não tem de ser gélido, pode ser caloroso, e os Gaerea são a prova viva disso mesmo.

 WE ARE GAEREA passou rapidamente para o nosso léxico diário de festivaleiro. E os Gaerea alugaram um triplex no nosso coração.


Corrosion of Conformity um clássico

Desde o Sludge ao som mais firmado no Southern Rock, a banda norte-americana, acima de tudo, sabe fazer música. Desenganem-se aqueles que achavam que agora este seria um concerto mortiço. Acreditem nas palavras, deste que vos escreve, acho que nunca vi tanto crowd surfing….

Eu levantei tantas vezes um dos meus amigos, para o mar tenebroso de gente metaleira, que digamos, que os nativos acharam que seria normal arremessar esse meu amigo – durante todo o concerto… eu sei, eu sei, criei o caos. Em minha defesa, foi tudo em nome da diversão.

Um concerto, em que a minha esperança era curtir um bom rock, nas calmas. Transfigurou-se um dos maiores concertos do festival – e ainda bem.

 


O primeiro dia fechou rapidamente. Foi incrível, foi indescritível. E só de pensar que este era o dia “fraco”, atendendo aos nossos gostos pessoais. O segundo dia prometia.

 


Dia 9


Conjurer a 2ª dose foi ainda mais intensa

Se Night of Salvation Conjurer tinham sido absolutamente, devastadores, pois bem, o concerto no Damnation foi transcendental. Com um set muito focado no novo álbum ‘Unself’, onde tocaram mais de metade, essa sonoridade caiu-me melhor nos ouvidos (pelo menos ao vivo). Um trance colectivo que era visivel por todo o palco principal. E terminar com a ‘Choke’ foi a jarda que todos estávamos a precisar para acordar da viagem, pelos meandros da mente. Uma banda que ao vivo soa muito, mas muito melhor, do quem em estúdio – tanto em termos de som, como em termos de energia e presença de palco. Maravilhoso!


Onslaught com um Thrash que nunca desilude

Eu adoro Onslaught! Quem me conhece sabe bem disso. Aliás eu amo Thrash no geral. Tinha uma elevada expectativa para este concerto, porque seria ver Onslaught em solo do UK. E a verdade é que concerto foi bom, não tão bom como eu desejaria. O que faltou não foi nada relacionado com a banda, porque eles tocaram poderosamente. O que faltou foram, mais pessoas junto do palco e mais tempo, para que o set fosse ainda mais dominante. Claro que deu para muita dança (circle pit perpétuo, do qual eu orgulhosamente fiz parte eheh), e obviamente, para muita diversão. O Pit seria sempre um potencial local de encontro com a minha malta, caso nos perdêssemos (aliás estava assim estabelecido entre nós), e foi aí que encontramos um dos nossos membros: Into the Pit!

Ouvir ‘Iron Fist’ ao vivo, ainda que em forma de cover, deixa sempre aquele formigueiro na barriga, que irradia sob a forma arrepios por toda a epiderme. Memórias a serem construídas, alicerçadas noutras tantas tão boas – a sensação é libertação e felicidade; é nostalgia e leveza.


Coilguns e a talvez a maior surpresa do festival

Eu não consegui ver Coilguns em Portugal, neste verão, e como tal era um must no Damnation. Nada, mas mesmo nada, me poderia ter preparado para aquela machadada sonora. A atitude do vocalista Louis Jucker surpreendeu todos (acho que até a própria organização). Desde a subida a colunas, desde o facto de ir para a traseira do plateia– enquanto vários membros seguravam o fio do microfone entre o público – enfim uma presença monstruosa, que lhes proporcionaram, talvez a maior fila para merch de todo o fest, após esta brilhante performance. A sonoridade que mescla o hardcore ao noise rock deixa-nos em êxtase, e claro a vivacidade com que são cantadas e tocadas, tornam toda a experiência naquilo que um concerto deve ser sempre. Um dos melhores do festival, e seguramente a maior surpresa.

 

Priomordial para um ritual de calma (aparente)

Saí à pressa de Coilguns, porque queria muito ver Primordial. A banda foi colocada num slot do festival que permitiu um certo desaceleramento, e sem dúvida, bastante desejado. Deu para entrar num estado mais reflexivo, e para repor algumas baterias (que iriam ser tão bem gastas mais tarde). Ouvir ‘Empires Falls’ despoleta sempre emoções fortes dentro de mim – e ao vivo tem toda uma paleta de cores diferente. A música pode ser mais calma, todavia, o conjunto de emoções produzida conduz-nos pelas veredas inortodoxas da nossa consciência.

 

Psychonaut e um som que não é deste planeta

Eu não tinha ouvido nada, desta banda, antes do festival. Ouvidos totalmente virgens em relação ao que seria produzido, e o resultado foi uma conquista em menos de 1minuto. Um post-rock totalmente psicadélico, que é um space shuttle para excursões introspetivas – para uma completa imersão simbiótica com a música.

Deveríamos ter ficado mais perto do palco, ainda assim, a energia percolava pelos corpos dançantes, de todos os presentes, e fomos atingidos por aqueles raios musicais metafísicos. As almas tinham abandonado, temporariamente os corpos, e encontravam-se no plano astral a olhar por cima. Quanto terminou, todos voltaram à realidade. A transformação tinha ocorrido, e ninguém se tinha apercebido – tal foi o power natural com que fomos bafejados pelo trio belga.

 

Pig Destroyer, O GRIND

Eu conhecia Pig Destroyer, e como tal eu estava à espera de Grindcore genérico, ou seja: CAOS!

Mais uma vez, a minha impreparação escoltou-me para um ciclópico brinde. Isto não é o teu regular Grindcore, isto é, de facto bom! Tanto em termos de ambiente – e aí sim, é o caos – e também em termos musicais, porque há uma certa beleza minuciosa que passará entre os poros de confusão desarmónica, porém após captado, eleva-nos para um pedestal sonoro, que nos faz, pura e simplesmente sorrir – enquanto somos arremessados para um crowd surfing que insistia em não cessar.

Talvez, um dos melhores ambientes (eu diria o 2º), onde todos os membros da patrulha metal, estiveram no combate - que foi aquele pit. Mosh pit caótico e frenético, que só abrandava, subtilmente, para que os surfistas de multidões pudessem chegar à "margem segura dos seguranças (no pun intended!)". Após uma destruição que passou demasiado rápido, sentimos que queríamos que continuasse.

 

Hellripper the GOAT

Música para dançar, literalmente. Como tradição criada, há já algum tempo. Eu tento sempre dançar a valsa no meio do pit – literalmente a valsa. No SWR Barroselas, foi feita em cima do palco de Hellripper. Pois, no Damnation não nos era permitido tal façanha, todavia, da parte deste amigo que vos escreve estas palavras, foi feito história na mesma. Dançou-se a valsa no meio do pit, e tal não seria o mesmo espanto, quando reparei, que tinha pagado moda, e diversas pessoas, neste, e noutros concertos continuaram a fazê-lo. Digamos que há um certo orgulho em criar (novas) formas de divertimento, nos concertos, e ver que realmente os metaleiros se conseguem genuinamente divertir.

Sobre o concerto, digamos que Hellripper sabe dar uma festa, e o seu público sabe como agir em consonância, desse jeito existe sempre uma aura de pura destruição massiva amalgamada em diversão estonteante. Continuo a ter o gig no RCA em lisboa, no coração, porém ver Hellripper ao vivo preenche-me sempre o miocárdio (e este ano foram 2x).

‘Hell’s Rock’n’Roll' sabe sempre a nova, e é tão enérgica que todos pareciam eletrões no último estado de valência.

 

Anaal Nathrakh e o melhor show do fest

Este foi o concerto do festival! A presença cataclísmica, que se fez sentir, abalou todo o planeta Terra, e todos, sem exceção sentiram na pele a energia cósmica. Já havia uma certa suspeita da minha parte, que havia ali muitos fãs. A quantidade de gente que alardeava t-shirts da banda, vaticinava que este seria um ponto alto, para muitos – foi para todos.

A sonoridade que migra entre o Grindcore, Black e o Industrial tornam o seu som único, e bastante reconhecível. Com uma identidade de som muito própria e uma presença de superestrelas, que lançaram uma onda de devastação por toda a BEC Arena. No palco eram os reis do festival. E a plateia eram os heróis que decidiram combater em nome da banda, num mosh que foi o mais dinâmico e hilariante. Até balões existiam, diga-se de passagem, que foi uma ideia genial, porque os balões tornaram todo o concerto, muito mais interessante. E claro que, na existência de balões, ocorreram, indubitavelmente, duelos pela custódia de tais relíquias. Eu próprio, vi-me obrigado a proteger, com a minha vida, dois balões de ataque furtivos, de quem os cobiçava. Enquanto isto, o mosh entrava num estado de autêntico Armageddon, e todos lutavam para ficaram marcados na história. O crowd surfing foi intenso, e o mar de pessoas encontrava-se agreste, contudo, Manchester estava munido dos melhores marujos, para este tipo de marés.

A banda entregou um showzão, que nos meteu a falar do seu concerto, durante o resto do festival, e ainda uma semana depois, continua tão vivo, como se tivesse sido ontem. Marcou todos, à sua maneira, e de certeza, que também, a banda levará este concerto consigo, para sempre.

Eu tinha visto a banda no Xapada Fest em 2024, e digo, que este concerto no Damnation foi exponencialmente melhor, só que um nível que eu nem consigo descrever por palavras – e tenho pena, de não conseguir transmitir, por escrito, com a justiça que aquele concerto merecia. ‘Forward’ ativou um mecanismo de loucura que existia nos presentes, e todos celebraram como se aquele fosse o último concerto no mundo. ‘Endarkenment’ foi a cereja no topo do bolo: os que ainda tinham energias, iriam gastá-la de forma imponente e majestosa; os outros tantos que já se encontravam secos de vitalidade, tiveram de angariar forças sobre-humanas, para poderem estar presentes: num último combate!

 

The Haunted com um Thashzão

Uma das bandas que mais queria ver neste festival. E honestamente, estava à espera de mais. Não sei, se porque anteriormente, teriam sido elevadas fasquias demasiado altas, ou se simplesmente, não era o momento. Não obstante, o poder musical era palpável e a destreza com que os riffs eram executados evidenciaram a qualidade técnica do grupo. E claro, ver Ola Englund a tocar ao vivo tem uma mística radiante. Obviamente, sendo Thrash houve muito tempo para circle pit e muito mosh.

 

Mantar poder sonoro

Um dos clashes do festival. Ao mesmo tempo, estavam a tocar os Spectral Wound. A escolha foi feita, e a nossa equipa dividiu-se 2 a 2. Eu queria muito ver Mantar – uma das bandas que me fez ir ao festival.

O início foi um pouco modesto, da parte da audiência. Mas após algumas malhas, lá surgiu o fósforo (eu e o meu amigo) no meio daquele barril de gasolina, e lá começou a festa propriamente dita. E até a atitude do vocalista Hanno Klänhardt mudou, com um sorriso subtil – transmitindo que a sua missão tinha sido cumprida. O som caustico de Mantar que une um Sludge crú com um Black arrepiante, salpicado com uma atitude Punk, torna a experiência do ouvinte um verdadeiro gáudio.

 

Amenra espiritualidade que engrandece

Amenra não me cativa. Mesmo depois de os ver ao vivo, reconheço a sua grandiosidade tanto em termos de técnica, lírica e mesmo de vibe. É manifestamente um bom som, e talvez dos melhores Post-Rock que por aí andam, até porque a mistura de estilos é uma lista infindável.

O concerto em Manchester foi quase que uma cerimónia espiritual. E isso era patente, olhando à volta para os meus colegas festivaleiros, que celeremente mergulharam no oceano místico, que foi a atuação dos belgas.

 

Wiegedood numa exibição única

Mais uma armadilha do festival. Wiegedood iriam tocar os seus 3 primeiros álbuns, enquanto tocariam Warning e Napalm Death. Escolhas teriam de ser feitas, e assim foi. Um bocadinho de Wiegedood, e depois seguir-se-ia para Napalm Death.

O Black Metal de Wiegedood é incondicionalmente lindo! Destrutivo, lânguido e carregado de emoção. A música é como um barco, que nos faz navegar, lentamente, pelo rio styx e os Wiegedood são o Caronte. O ambiente era de comunhão e de reflexão, cada um, à sua moda, e jeito, lá encontrava uma forma de expurgar as suas emoções – no final todos sairiam purificados.

 

Napalm Death: Os pais do Grindcore

Confesso que, ver Napalm Death no UK era um objectivo. Confesso que, voltar a ver Napalm Death antes de 2026 também era um objectivo. A monstruosidade que é ver Napalm Death ao vivo é algo que consegue sempre superar, qualquer tipo de expectativa, anteriormente concebida.

Digamos que Caos é uma palavra fútil, para ilustrar aquele campo de batalha medieval. Cerveja derramada por cada centímetro quadrado. Muito, mas muito crowd surfing, ao ponto de existirem várias pistas de descolagem. O mosh foi crescendo ao longo da atuação, que parecia que ia engolindo pessoas, para depois as soltar, sobre a falsa sensação de serem livres, porque estas já pertenciam ao mosh pit, e de lá, nunca mais sairiam – até à última canção findar.

Ouvir temas clássicos como 'Scum' e ‘You Suffer' tem sempre um certo gostinho. Porém nada se compara, na minha humilde opinião, ao groove da 'Suffer the Children', onde eu loucamente mergulhei no ar bravo de gente que por lá dançava. E como um naufrago, nadei pelas ondas de gente vestida de preto e battle jackets, e lá cheguei ao destino, para depois voltar a entrar no mosh – o ciclo do metaleiro.

Foi possível, colocar a malta do pit a cantar os parabéns a um dos meus amigos, que fez anos à meia-noite, enquanto era carregado para iniciar o seu primeiro crowd surfing com a nova idade – objectivos foram cumpridos!

A atitude de Napalm Death era combustível para toda a arena. Que não se cansam, nem esgotam energias. Quando terminou o concerto, ficou-se com a impressão de que estariam preparados para mais 60minutos – impressionante.

 

Quanto terminou, caiu-me a ficha. O festival tinha terminado, e passou demasiado rápido. Lógica da vida, o tempo passa sempre mais depressa quando nos estamos a divertir, que é um paradoxo horrível de se contemplar. Coração infundido pela chama de muita música boa, e o corpo cheio de adrenalina, tinha muito para processar, só que no meu âmago eu já sabia uma coisa: Este é o festival do ano!

 

 

Este é mesmo o melhor festival, que tive o privilégio de estar em 2025! Este eu recomento a todos! Todos! TODOS!

O ambiente descontraído carregado de fãs de metal, projeta-nos para um plano sideral de pura energia musical. O sentimento de comunidade é forte, e manifesta-se em quase todas as interações entre todos os presentes. O som na generalidade é bom, ainda que indoor (o que em Portugal costuma ser complicado), tirando em algumas atuações.  

A hospitalidade é bastante vincada, e faz-nos sentir em casa. O cartaz é forte, e puxa diversos subgéneros, o que apela a um rol variado de público (ou a pessoas como eu, que gostam de tudo).

Amei o fair-play nos pits com a malta. Rapidamente, ficamos conhecidos pelo nosso carisma idiossincrático, em particular pela nossa boa disposição. Fomos elogiados até, pelo nosso cuidado em levarmos (em crowd surfing) a malta, em segurança, até aos braços dos seguranças. Porque se há coisa que prezamos, é pelo bem-estar da nossa comunidade, da nossa família, dos nossos metaleiros. Houve tempo para circle pit com balões, e aproveito para agradecer à minha amiga dos balões, que me tentou (nunca bem-sucedida) roubar os balões, obrigado pela diversão adicional. Houve tempo para crowd surfing inovativo (acho que de facto inventamos um novo move, que consistiu em eu ser levantado em crowd surfing, enquanto tinha um dos meus amigos nas cavalitas – correu bem, fomos bem-sucedidos, graças aos nossos colegas que rapidamente aceitaram o desafio). Houve tempo para muita mocada (que para quem não sabe é o nome que se dá a mosh incessante e perpetuo).

E claro, a demonstração do orgulho de ver a banda portuguesa Gaerea, que arrasou por completo, pois são os nossos Gaerea, e We are Gaerea. Fizemos um cagaçal tão grande, que no final até nos vieram pedir para tirar foto… Foi Épico!

Amei ver o espírito do metal, veiculado na forma de centenas de battle jackets. Muitas t-shirts de Bolt Thrower (inclusive uma da sua última tour) e patches – uma raridade, mas depois lembrei-me que estava no UK. Naquele espaço, naqueles dias, respirou-se metal; naquele espaço, naqueles dias, viveu-se metal. Manchester naquele fim-de-semana foi irrepreensivelmente a capital do Metal.

Eu já perdi a conta de vezes que agradeci, e temo que me tenha esquecido de alguém, mas ainda assim, aqui vai: Muito obrigado a todos os que encontrei/encontramos nesta viagem por Manchester, nesta aventura pelo Damnation e na Night of Salvation.

A única palavra que pode descrever o que senti, e estou a sentir, e que, provavelmente, me irei sentir nos próximos dias: Felicidade!

Coração cheio de alegria, e o cérebro repleto de boas recordações. Fico com uma enorme vontade de lá voltar (com a minha malta, e quem sabe com novos elementos).

Um último obrigado aos meus grandes amigos Francisco, Gil e Miguel, porque em conjunto mudamos o nome do Festival para Domination, porque nós dominamos todos os palcos! Obrigado pela paciência e pela camaradagem. Obrigado pela aventura, pela amizade e pelas memórias, e estas últimas, por muito que tentássemos, não irão abandonar a nossa mente. Obrigado! E para o ano há mais!

 

 

Vou deixar apenas, aquele que é na minha modesta opinião, TOP de concertos:


Dia 8

  1. Gaerea
  2. Orbit Culture
  3. Corrosion of Conformity
  4. High on Fire
  5. Messa

Dia 9

  1. Anaal Nathrahk
  2. Pig Destroyer
  3. Conjurer
  4. Coilguns
  5. Napalm Death

 

E já agora o TOP de surpresas:

  1. Coilguns
  2. Perturbator
  3. Psychonaut
  4. Afsky
  5. Wormrot

 


E ninguém perguntou, mas…. Deixar uma lista de 20 bandas que seriam incríveis de ver na próxima edição:

  1. Cannibal Corpse
  2. Crowbar
  3. Watain
  4. Agalloch
  5. Electric Wizard
  6. Alcest
  7. Satyricon
  8. Rivers of Nihil
  9. Death to All
  10. DevilDriver
  11. Benighted
  12. Aborted
  13. Archspire
  14. Beyond Creation
  15. First Fragment
  16. Acid Bath
  17. Blackbraid
  18. Wet cactus
  19. Cattle Decapitation
  20. Primus

 

Deixo também nomes portugueses

  1. Serrabulho
  2. Irae
  3. Bizarra Locomotiva
  4. Azzaya
  5. Voidwomb
  6. Vaneno
  7. Resurge
  8. Equaleft
  9. Spit God
  10. Capela Mortuária

 


Querem-se mais festivais! Quer-se boa música, bom ambiente e bons festivaleiros! Querem-se momentos destes onde possamos ser livres e abraçar a música, e poder recordar mais tarde. Querem-se experiências musicais, e partilha dessas mesmas experiências.

É isto que é metal! É isto que é O Peso do Metal!


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